A pecuária leiteira brasileira enfrenta desafios que vão além do volume produzido. Os custos de produção, as oscilações nos preços recebidos pelos produtores e a concorrência com produtos lácteos importados estão entre as principais preocupações da cadeia produtiva.
Esses assuntos estiveram no centro do debate “Políticas Públicas e Mercado do Leite”, realizado em 16 de outubro, durante a 4ª ExpoLeite, em Uberaba, Minas Gerais.
Promovido pela Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), o encontro reuniu representantes do setor para discutir medidas capazes de melhorar a rentabilidade das propriedades e fortalecer a produção nacional.
Brasil produz 36,7 bilhões de litros de leite, mas rentabilidade preocupa
A produção brasileira de leite alcançou 36,7 bilhões de litros em 2025, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentados pela ABCZ.
O volume demonstra a importância da atividade para a economia agropecuária nacional. Entretanto, produzir mais não significa necessariamente obter melhores resultados financeiros.
A receita das propriedades depende do preço recebido pelo litro de leite, enquanto as despesas incluem alimentação animal, energia elétrica, mão de obra, sanidade, reprodução e manutenção das instalações.
Quando os custos aumentam sem uma valorização proporcional do leite, a margem de lucro do produtor pode diminuir, mesmo que a quantidade produzida permaneça estável ou cresça.
Essa diferença entre produtividade e rentabilidade foi um dos pontos centrais das discussões realizadas durante a ExpoLeite.
Importações de lácteos preocupam produtores brasileiros
A concorrência com produtos lácteos importados também foi discutida pelos representantes da cadeia leiteira.
A entrada de leite em pó, queijos e outros derivados no mercado brasileiro pode influenciar as condições de concorrência enfrentadas pela indústria nacional, dependendo dos preços internacionais, do câmbio e dos volumes comercializados.
Para os produtores, uma das principais preocupações é a possibilidade de pressão sobre os preços pagos pela matéria-prima.
Entretanto, o efeito das importações não ocorre de maneira isolada. A oferta doméstica de leite, a demanda dos consumidores e os custos de processamento também influenciam a formação dos preços.
Durante o encontro, representantes do setor defenderam a necessidade de políticas públicas que contribuam para a competitividade da cadeia produtiva brasileira.
Alimentação animal representa um dos principais desafios econômicos
A alimentação do rebanho ocupa uma parcela importante dos custos operacionais da pecuária leiteira.
Ingredientes como milho e farelo de soja são utilizados na formulação de rações concentradas, enquanto silagem, capim-elefante, pastagens e outros volumosos compõem a base alimentar de diferentes sistemas de produção.
A participação de cada alimento e seu custo variam conforme a região, a época do ano e o modelo de criação.
Por isso, o produtor precisa avaliar não apenas o preço de compra da ração, mas também a quantidade utilizada, a qualidade nutricional e a resposta produtiva dos animais.
Uma dieta mais barata por quilograma nem sempre representa o menor custo por litro de leite produzido.
O planejamento alimentar, a conservação de volumosos e o acompanhamento técnico podem ajudar a melhorar a eficiência econômica da propriedade.
Pecuária leiteira de Sergipe também enfrenta desafios de produtividade e custos
Em Sergipe, a pecuária leiteira possui importância econômica e social, especialmente no Alto Sertão, onde municípios como Nossa Senhora da Glória concentram atividades relacionadas à produção, ao beneficiamento e à comercialização do leite.
Os temas discutidos nacionalmente também são relevantes para a realidade dos pecuaristas sergipanos.
A necessidade de manter a alimentação dos rebanhos durante períodos de menor disponibilidade de pastagens, os custos dos insumos e a negociação dos preços com os compradores fazem parte do planejamento econômico das propriedades.
Para produtores que utilizam silagem de milho, capim-elefante e ração concentrada, conhecer o custo alimentar por litro produzido é uma ferramenta importante para avaliar a eficiência do sistema.
A situação específica dos preços pagos aos produtores de Sergipe, entretanto, exige levantamento regional atualizado. Os dados nacionais apresentados durante a ExpoLeite não permitem concluir que houve queda recente no preço do leite no estado.
Melhoramento genético e gestão podem contribuir para maior eficiência
Além das questões comerciais, a pecuária leiteira brasileira vem ampliando o uso de tecnologias voltadas ao melhoramento genético e à gestão dos rebanhos.
A seleção de animais com características adequadas ao sistema de produção, associada ao manejo nutricional, reprodutivo e sanitário, pode contribuir para melhorar os resultados das propriedades.
Raças como Gir Leiteiro e Girolando possuem importância na produção brasileira, especialmente em sistemas que buscam combinar características produtivas com adaptação às condições tropicais.
Entretanto, o investimento em genética precisa ser acompanhado de planejamento financeiro, infraestrutura e condições adequadas de alimentação e manejo.
O aumento da produtividade individual não garante maior lucro quando os custos adicionais superam o crescimento da receita.
O que o produtor pode fazer para melhorar a rentabilidade?
Diante das dificuldades enfrentadas pelo setor, algumas medidas de gestão podem ajudar o pecuarista a compreender melhor os resultados da atividade.
Entre elas estão o acompanhamento do custo por litro produzido, o controle das despesas com alimentação, a avaliação da produtividade individual das vacas e o planejamento da produção de volumosos.
Também é importante registrar os valores recebidos pelo leite e acompanhar as condições de comercialização.
Esses controles permitem identificar desperdícios, comparar períodos e avaliar investimentos com maior segurança.
Para propriedades familiares e pequenos produtores, o apoio da assistência técnica pode ser especialmente importante na organização dessas informações.
Setor busca soluções para fortalecer a produção nacional
O debate realizado durante a ExpoLeite reforçou a necessidade de aproximar produtores, cooperativas, indústrias e representantes institucionais na busca por soluções para a cadeia leiteira.
Segundo a ABCZ, as discussões envolveram a necessidade de políticas públicas específicas e de medidas voltadas à sustentabilidade econômica da atividade.
O presidente do Sindicato Rural de Uberaba, Vinícius Rodrigues, destacou a importância de reunir diferentes participantes da cadeia produtiva para discutir os problemas e buscar soluções conjuntas.
Para o produtor rural, o desafio continua sendo transformar produtividade em resultado financeiro.
Em um mercado marcado por oscilações de preços e custos elevados, o planejamento da alimentação, o controle financeiro e a eficiência produtiva são fundamentais para a sustentabilidade da pecuária leiteira.